Saúde & Bem Estar

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EUA recomendam reclassificação da maconha; evidências científicas sobre uso medicinal continuam restritas

Decisão de Trump pode facilitar pesquisas médicas sobre cannabis, enquanto revisão científica aponta benefícios em poucos casos e alerta para riscos associados ao uso.

Por Seridoense em 19 de dezembro de 2025

Foto: Freepik

Nesta quinta-feira (18), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que recomenda o afrouxamento das regras federais sobre a maconha, potencialmente reclassificando a substância para uma categoria considerada menos perigosa. Atualmente, a cannabis está na mesma classificação que drogas como heroína e ecstasy, consideradas de alto potencial de abuso e sem uso médico aceito sob a lei federal americana.

A mudança busca ampliar a pesquisa científica sobre a planta e seus derivados, incentivando estudos que possam esclarecer riscos e possíveis aplicações terapêuticas. Autoridades do governo afirmam que isso pode desbloquear novos ensaios clínicos e facilitar o desenvolvimento de tratamentos baseados em canabinoides.

O uso medicinal da cannabis tem se expandido globalmente nas últimas décadas, impulsionado por alterações regulatórias em diversos países, relatos de pacientes e o interesse por alternativas “naturais” para tratar sintomas como dor, ansiedade e insônia. No Brasil, um capítulo recente dessa discussão ocorreu em novembro de 2025, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a Embrapa a cultivar e pesquisar a cannabis em território nacional, exclusivamente para fins científicos e sob rígido controle.

Embora a pressão por evidências cresça, uma revisão científica publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) traça um panorama mais cauteloso sobre o que a ciência sabe até agora. O estudo analisou 124 pesquisas realizadas entre 2010 e 2025, incluindo ensaios clínicos, revisões sistemáticas e meta-análises, e concluiu que há evidências robustas apenas para usos médicos muito específicos da cannabis ou de canabinoides farmacêuticos padronizados.

Evidências sólidas em casos pontuais

Especialistas ouvidos pela análise destacam que os benefícios mais bem comprovados da cannabis medicinal aparecem em contextos específicos, com formulações e doses controladas. Entre eles estão:

  • Redução de crises em algumas epilepsias pediátricas raras e refratárias, como síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, com uso de canabidiol purificado;

  • Controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia com canabinoides sintéticos;

  • Estímulo de apetite em pacientes com HIV/AIDS, embora com efeitos considerados modestos.

Segundo o psiquiatra Vinicius Barbosa, a revisão não altera diretamente as recomendações clínicas vigentes, mas organiza criticamente as evidências existentes, distinguindo entre dados robustos e expectativas exageradas.

Cannabis medicinal ≠ medicamento

O estudo ressalta uma distinção importante entre canabinoides de grau farmacêutico — como o canabidiol purificado, o dronabinol e a nabilona, que passam por rigorosos controles de qualidade e ensaios clínicos — e os produtos vendidos comercialmente como “cannabis medicinal”.

Muitos desses produtos, incluindo óleos, extratos e flores, podem apresentar variabilidade significativa na concentração de THC e CBD, falta de padronização e risco de contaminantes, fatores que limitam sua confiabilidade e segurança terapêutica. Para a médica Juliana Bogado, essa confusão entre plantas e medicamentos pode gerar falsa sensação de segurança entre pacientes e profissionais.

Foto: Pixabay

Sintomas comuns e evidências insuficientes

Enquanto relatos de uso para dor crônica, insônia e ansiedade são frequentes, a revisão científica mostra que, nesses casos, os estudos disponíveis são geralmente pequenos, de curta duração, com resultados subjetivos e sem conclusões firmes. O efeito placebo nesses contextos costuma ser elevado, o que dificulta a interpretação dos resultados.

Riscos documentados

Além das evidências limitadas de eficácia, os pesquisadores destacam riscos associados ao uso da cannabis, especialmente em produtos com alto teor de THC. Entre os problemas mais associados estão:

  • Sintomas psicóticos e ansiedade exacerbada;

  • Dependência de cannabis;

  • Eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral, particularmente em usuários frequentes.

Estima-se que cerca de 29% dos usuários de cannabis medicinal atendam aos critérios para transtorno por uso de cannabis, um índice que alerta para a necessidade de cautela.

Um campo em desenvolvimento

Para especialistas, o atual movimento regulatório e científico reflete um momento de maturação do debate sobre cannabis medicinal. A planta possui múltiplos compostos com diferentes efeitos biológicos, e sua avaliação rigorosa exige estudos com metodologia sólida, controle de doses e acompanhamento prolongado.

O entusiasmo inicial está dando lugar a uma abordagem mais precisa e responsável”, resume Barbosa, reconhecendo a importância de avançar nas pesquisas sem perder de vista os limites das evidências disponíveis.


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